19 March 2009
Flashes de Monte Alegre
Dia 31, sábado, moradores da comunidade Airi demonstrariam aos rondonistas seu tradicional folião realizado em junho, na festividade de São João Batista. Mas no Airi, para ir de uma casa a outra, são quilômetros de terra, daquela bem vermelha.
Para que não caminhassem no sol e na poeira, o ônibus da prefeitura buscou os músicos, na beira da estrada ou em casa.
Uma das paradas, foi na residência de Maria Davina da Silva. Aos 69 anos, rugas bem marcadas na pele negra e alguns dentes faltando, a aposentada sempre viveu da roça. Mãe de 10 filhos, oito vivos, Maria mora com quatro deles. No quintal de terra batida, a família conversa e um panelão cozinha a galinhada. Maria nos dá a mão e diz: “Boralá sentar pra cumê cum a gente?”.
Na casa de madeira, pela porta aberta se vêem em frente à TV três dos sete netos que moram com a avó. Na testa de Edmilson - o mais novo - bem acima dos olhos de caboclo levemente puxados, de um lado se vê um arranhão, do outro, uma mosca insiste em pousar. Fora da casa, o irmão Elenilson, 11 anos, brinca de futebol. Garrafas de vidro são as traves e frascos de esmalte e shampoo, os jogadores, que "chutam" uma bolinha. “Peguei as coisas pela casa ou iam pro lixo. Às vezes meus irmão jogam, mas num ligo de jogar sozinho.”
Outra comunidade visitada, em 2 de fevereiro, foi a Canp. Lá vive Xavier dos Santos, 2 anos mais velha que Maria Davina. Passado o primeiro cômodo, onde panelas de alumínio brilham na parede, Dona Xavier está deitada sobre o lado esquerdo do corpo. Todo ele está paralisado há dois dias, quando sofreu um AVC. Xavier se emociona com a conversa e deixa escapar uma lágrima. “A banda que adormeceu num quer acordar e a que tá acordada num quer morrer”, diz aquela que, mesmo triste, não deixa de fazer piada.
16 February 2009
Pequenos pinta-cuias
Crianças que marcaram o Projeto Rondon,
Anderson, 4 anos: foi com o pai no primeiro dia do curso de atualização para jornalistas. Dei a ele folhas do meu bloco e caneta. Saiu o desenho de uma moto com várias cabeças, uma sobre a outra: o pai, a mãe, o filho, todos no mesmo veículo. Perguntou por que meu cabelo era dessa cor e quando eu disse que era loira: “Onde você pintou?”.
Monique, 6 anos, Comunidade Planalto: mulata, cabelos trançados, pinta sobre a boca. Cópia idêntica da mãe - professora da creche.
Fabiana, 10 anos, Comunidade Curitanfã: desenhou a bandeira do Pará (muitas crianças a desenharam ao longo dos dias, todos parecem conhecê-la bem). Disse que gostou muito de mim. Queria que eu não fosse embora e que fosse dar um passeio no bairro com ela.
Ranielson, 10 anos, Comunidade Curitanfã: no final da manhã, a Joana perguntou a ele o que tinha visto de diferente naquele dia. Pensou um pouco, apontou pra mim e disse: “Ela”.
Camila, 3 anos, Comunidade Curitanfã: morena de cachinhos. Veio toda arrumada, de saia jeans e presilhas no cabelo. Bem calma, ficou um bom tempo no meu colo. Talita tirou fotos lindas.
Frederico, 2 anos, Comunidade Curuxi: loirinho dos cachinhos – uma raridade por aqui! Estava só de bermuda e chegou ao ginásio com seus vários irmãos. Não parava de pular.
Monique, 11 anos, Comunidade Airi: Sabia onde fica Santa Catarina no mapa e algumas coisas
Elenilson, 11 anos, Comunidade Airi: brincava de futebol no quintal. Garrafas de vidro eram as traves e frascos de esmalte, shampoo e perfume, os jogadores, que "chutavam" uma bolinha de ping-pong.
Giovana, 6 anos, filha da Márcia – cozinheira da Comara: ficou feliz quando a Ju e eu a deixamos mexer no computador pela primeira vez. Digitou seu nome, o da mãe e das amiguinhas. Chupou mangas com a gente, presente do caseiro Benonir.
01 February 2009
Calor é pouco
Foi impressionante ver e ouvir, na reunião de abertura do projeto, todos cantando com gosto o hino montealegrense. A letra fala de um clima suave e ameno, um pouco contraditório com a realidade local. As pessoas aqui são mais do que calorosas. Adriana, da sorveteria, nos recebe com um sorriso todos os dias e nos faz feliz ao anunciar um sabor novo: cupuaçu, buriti, tapioca, castanha... Dona Claudete, do restaurante Sabor e Cheiro da Amazônia, diz que é um privilégio essa troca com gente de fora e nos ensinou a fazer bolinho de Piracuí (farinha feita do peixe Acari seco). Aliás, hoje fomos convidados para a sua despedida no almoço.
No banquete, servido na paróquia, estavam também a secretária Conceição e o engenheiro Nelsí, que de tão interessados em ter contato com os rondonistas deram um jeito de participar de nosso curso de atualização para jornalistas, mesmo nada tendo a ver com a área. Seu Nelsí se ofereceu para levar-nos como guia à Serra da Lua, onde se vêem as famosas inscrições rupestres da cidade. Conceição nos prometeu tapioca com leite condensado para a merenda da noite de segunda-feira, quando daremos continuidade ao curso.
Somos sempre recebidos com sorrisos e curiosidade. Por onde passam os rondonistas, logo se escuta um "Boa tarde" saindo de algum canto. Quando nos apresentamos, todos já sabem quem somos. Isso porque aqui não existe quem não ouça a rádio Mirante, onde demos entrevista e somos sempre pauta. Na loja de doces, a moça fez questão de não me deixar pagar quando pedi duas balas. Na papelaria onde compramos papel para nossas ações, os funcionários quiseram saber sobre a finalidade do Projeto Rondon e nos deram as boas-vindas. Depois das oficinas, os professores vêm nos agradecer com os olhos brilhando. As crianças, que se divertem quando contamos que nunca tínhamos comido cupuaçu ou visto um boto, nos abraçam, beijam e nos acham a coisa mais linda do mundo.
Seu Nelsí nos contou hoje que não existe fome por aqui. Mesmo nas comunidades mais carentes, quando alguém passa por dificuldades os vizinhos ajudam. "Se não têm condições, pedem para os outros ajudarem", conta. Ele diz que que quando alguém pede uma esmola e ele vê que a pessoa está realmente precisando, vai ao supermercado e compra farinha, leite, feijão, 1 kg de carne. Em meia horinha no supermercado, faz a sua parte.
Talvez fosse bom que um pouco desse calor soprasse para o sul do Brasil (sem o suadouro, é claro!). De fato, como disse nossa rondonista Ju Sakae, é fácil entender porque esse Monte se chama Alegre.
PS: Mais um pouco de calor ontem à noite: tivemos um show particular do grupo Suingue Show. Na varanda do nosso hotel, bailarinos e bailarinas rebolaram freneticamente em suas roupas e movimentos sensuais ao som de tecnobrega. Depois, ainda nos ensinaram alguns passos. Divertidíssimo!
28 December 2008
Susi & Eu
Nesta véspera de Natal, nossa cadela de 17 anos teve uma noite nada alegre. Já surda, enxergando apenas vultos, cada vez mais magra, quase sem nenhum dos dentes, ela amanheceu em um buraco, apenas com a cabeça para fora, toda molhada e com os olhos cheios de terra após a madrugada chuvosa. Era um milagre estar viva.
Neste dia de Natal, Susi, nossa querida viralata que se aproximava a um basset de pêlo longo, ganhou um banho, limpeza dos olhos, papinha que ela ainda teve forças para comer. Mas vê-la agora totalmente cega, batendo o focinho na parede, andando em círculos e caminhando com ainda mais dificuldade, cortou-me o coração.
Na manhã do dia 26, seu latido de súplica tirou-me da cama. Lá fui eu resgatá-la, presa em galhos espinhosos sem saber onde estava e como sair de lá. Os olhos inflamados e o corpo tremendo de frio. Sabíamos que o momento tinha chegado.
A clínica estava aberta e a veterinária confirmou o que já esperávamos. Após a anestesia geral, nos despedimos da pequena que nos deu tanta alegria.
Não me recordo de quase nada antes da Susi. Eu tinha apenas três anos quando ela chegou. Aliás, ainda me lembro de quando a vi pela primeira vez, aquela coisinha peluda e marrom, trazida em uma caixa de papelão. É estranho pensar em chegar em casa e não encontrá-la, mas foi um alívio livrá-la do sofrimento.
Apesar de bem menor e mais comportada que Marley, Susi foi como ele e os tantos outros cães que se tornam parte da família. O difícil é lidar com o fato de que suas vidas são muito mais curtas que as nossas.
História de uma família e seu cão Marley, um labrador um tanto neurótico que ensina a seus donos boas maneiras e o que realmente importa na vida. Adaptação para o cinema do best-seller "Marley & Me", escrito pelo jornalista e colunista do Philadelphia Inquirer John Grogan, que descreve sua experiência com o cão hiperativo que passou a fazer parte da família.
23 October 2008
Cronicando
Comecemos pelo nome curioso “Ungáua”. É o que o Tarzan, interpretado por Johnny Weissmuller no cinema, dizia ao macaco, ao elefante e aos outros bichos quando queria lhes dar alguma ordem. “Falava apenas ‘Ungáua!’ e o bicho entendia imediatamente o que tinha de fazer”, explica Ruy. Talvez essa seja uma analogia com a espontaneidade e a fácil compreensão da crônica. Mas escrevê-la é bem mais complexo do que parece.
A crônica exige um grande exercício de observação e síntese. “Me obriga a ficar atento ao que está se passando, o que é bom, porque tendo a ser meio desligado à vida real”, diz Ruy. O cronista leva cerca de duas horas para escrever aqueles 1777 caracteres para a Folha, incluindo todas as mudanças feitas no texto mesmo depois de “pronto”. Ruy conta ainda que quando começa uma crônica só tem uma idéia vaga do assunto, ele vai tomando forma à medida que escreve.
Mas não só redigir essa criaturinha é difícil. Defini-la também o é: afinal, o que é uma crônica? A professora de português e cronista Regina Carvalho diz que a característica principal do gênero é justamente não ter característica nenhuma: tudo pode ser crônica. “A única definição possível é a de que ela é um texto literário para jornal”, afirma. E assim, como texto literário tem toda a liberdade de linguagem, estilo, temática. As limitações lhe vêm impostas pela publicação. Ruy, por sua vez, define a crônica como um comentário bem escrito, que leva em conta os mandamentos imutáveis do jornal: o quê, como, quem, quando, onde.
O cronista brinca que sua inspiração para escrever vem do horário de fechamento do jornal e que o cenário carioca é quase sempre um bom ponto de partida, mas não é o único. Ele explica que em Ungáua! há poucas crônicas que se passam no Rio, mas a maneira de ver o mundo, esta sim, é sempre carioca. “Todos aqueles cronistas capixabas (Rubem Braga, Carlinhos Oliveira), mineiros (Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos), pernambucanos (Nelson Rodrigues) e até paulistas (Elsie Lessa) só se tornaram cronistas no Rio. Só uma metrópole em que se possa andar a pé fornece material para crônica”, acrescenta Ruy.
Aqui entra em questão também a brasilidade da crônica. Para o cronista carioca, não há dúvidas de que esse é um gênero tipicamente brasileiro. A professora Regina discorda. Ela ressalta que há crônicas em outros países, com características diferenciadas. Cita como exemplo o Uruguai e seu popular escritor Eduardo Galeano. Ficou famoso não só por sua obra As veias abertas da América Latina, mas também por seus livros de crônicas, como Bocas do Tempo, publicado em português. “Brasileiro precisa parar com essa megalomania disfarçada de complexo de inferioridade, achando que tudo é melhor no Brasil, ou só existe aqui, poxa!”, opina Regina. Segundo ela, o que houve no Brasil é que a crônica atingiu uma popularidade muito grande.
E por falar em popularidade, Ruy Castro considera que um romancista tende a ser bem mais valorizado que um cronista por o romance ser coisa muito mais séria, que dá muito mais trabalho. Ele mesmo foi consagrado por seus livros de reconstituição histórica e biografias. Regina, entretanto, cita o romancista Cristovão Tezza com sua fala de que todos amam um cronista e ninguém conhece um romancista. “E olhem que o Tezza tem renome nacional! Mas o que se pode esperar num universo em que se lê pouco?”, diz a professora. Ela afirma não saber se as pessoas lêem o jornal, mas ter certeza de que as crônicas elas lêem.
Regina acredita que a crônica deve falar do cotidiano com leveza e humor. Mas deve também bronquear quando preciso, porque há coisas que revoltam até o cronista mais bem-humorado do mundo. A professora diz que o crítico Antônio Candido afirma ser o grande mérito da crônica fazer a literatura descer dos altos píncaros em que costuma se encastelar para a altura do leitor comum. E Regina destaca a importância desse trazer um pouco de beleza e reflexão para a vida das pessoas, de uma forma que elas possam assimilar e ter prazer com isso. Sem rodeios, Ruy Castro diz que uma boa crônica deve ser simplesmente interessante de ler.
Texto publicado na Semana Revista,
da VII Semana de Jornalismo da UFSC,
e no Observatório da Imprensa,
em 2 de setembro de 2008
30 September 2008
O que é a estética hoje?
Logo no início, Tiburi já alertou para a simplicidade de seu discurso ao dizer que ficaria em um local chamado de pré-filosofia, onde na lama de sua ignorância iria questionar "para que serve a estética hoje?". A filósofa põe em dúvida a utilidade da estética e afirma que existe um abismo entre o espectador e a arte. "Nos encontramos com uma obra de arte e não sabemos o que fazer com ela", afirma.
Os críticos poderiam ser os meio-campistas entre artista e espectadores. Porém, o que acontece, é que essas figuras são muitas vezes simplesmente jornalistas que se interessam pelo assunto. "Se disserem onde a obra está errada, apontarem um defeito, estarão dizendo algo importante para sua carreira", critica Tiburi. Se os críticos acabam sitiando o território entre artista e espectador, ela questiona a função dos críticos e aponta como alternativa que eles desistam. Uma saída menos radical seria promover a interdisciplinaridade entre críticos e estudiosos da estética.
Para responder à pergunta inicial, Márcia lança a hipótese da estética como aquilo que deve ligar a arte e a vida.
27 September 2008
Sobre a natureza humana
"Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante."
"[...] é mais ou menos assim o instante em que nasce o amor: a mulher não resiste à voz que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz."
"Não estava certo de ter agido bem, mas estava certo de ter agido como queria."
"[...] a vida humana só acontece uma vez e não podemos jamais verificar qual seria a boa ou a má decisão, porque, em todas as situações, só podemos decidir uma vez. Não nos é dado uma segunda, uma terceira ou uma quarta vidas para que possamos comparar decisões diferentes."
"Todos nós temos a necessidade de ser olhados. Podemos ser classificados em quatro categorias, segundo o tipo de olhar sob o qual queremos viver. A primeira procura o olhar de um número infinito de pessoas anônimas, em outras palavras, o olhar do público. [...] Na segunda categoria estão aqueles que não podem viver sem ser o foco de numerosos olhos familiares. São os incansáveis organizadores de coquetéis e jantares, mais felizes do que os da primeira categoria, que quando perdem seu público imaginam que a luz se apagou na sala de suas vidas. [...] As pessoas da segunda categoria sempre conseguem arrumar quem as olhe. [...] Vem em seguida a terceira categoria, aqueles que têm a necessidade de viver sob o olhar do ser amado. [...] Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão. [...] Por fim, existe a quarta categoria, a mais rara, a daqueles que vivem sob o olhar imaginário dos ausentes. São os sonhadores."
"[...] as perguntas que atormentam os casais humanos: será que ele me ama? será que gosta mais de mim do que eu dele? terá gostado de alguém mais do que de mim? Todas essas perguntas que interrogam o amor, o avaliam, o investigam, o examinam, será que não ameaçam destruí-lo no próprio embrião? Se somos incapazes de amar, talvez seja porque desejamos ser amados, quer dizer, queremos alguma coisa do outro (o amor), em vez de chegar a ele sem reivindicações, desejando apenas sua simples presença."
05 February 2008
Crítica em Ratatouille

Ratatouille é um filme encantador. O ratinho Remy ajuda um jovem desajeitado, Lingüini, a cozinhar no restaurante do fictício chef mais famoso de Paris, Gusteau, recém-falecido. Remy se consagra com seu RATatouille - prato francês de origem camponesa que leva berinjela, tomate, abobrinha, cebola, pimentão (clique aqui para a receita completa). O pequeno chef prova que a afirmação de Gusteau "qualquer um pode cozinhar" é verdadeira. Basta fazê-lo com paixão, saboreando cada aroma, cada sabor. Remy é o primeiro a dobrar o entojado crítico gastronômico Anton Ego, cujo ego realmente aterroriza qualquer chef. Ego nos dá uma lição sobre a crítica, que pode se aplicar à de gastronomia e à cultural:
"De muitas maneiras o trabalho do crítico é fácil. Arriscamos pouco e desfrutamos de uma posição sobre aqueles que oferecem seu trabalho e a si mesmos ao nosso julgamento. Nós prosperamos na crítica negativa, que é divertida de se escrever e ler. Mas a dura realidade que nós críticos temos de encarar é a de que, no todo, uma porcaria medíocre é provavelmente mais significativa do que nossa crítica que assim a designou. Mas há vezes em que um crítico realmente arrisca algo e isto acontece na descoberta e na defesa do novo. O mundo é indelicado com novos talentos, novas criações. O novo precisa de amigos. [...] Nem todo mundo pode se tornar um grande artista, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar".
PS: Não deixe de assistir, nos extras do DVD, a uma divertida animação que traz a história dos ratos e sua convivência com a humanidade - desde os homens das cavernas, passando pela peste negra, até os experimentos científicos realizados com esses bichinhos e que nos trazem tantos progressos. Não perca também a conversa sobre gastronomia e filmes com o chef Thomas Keller e o diretor Brad Bird. O notável trabalho da edição das entrevistas conecta os dois assuntos de maneira surpreendente.
19 January 2008
Férias e Noites Brancas
Por que brancas? Será devido à neve da Rússia? Ele era russo, não era? Ele quem? Dostoiévski! Dostoiévski? Você leu Dostoievski? Aham!
Pois é, é verdade. E foi uma surpresa. Noites brancas é um livro que se lê em poucas horas (são apenas 82 páginas, inclusas as ilustrações) e que é quase todo um diálogo em linguagem simples. O nome do autor já assusta e a dita complexidade de seus temas também. Portanto, começar por esta obra leve, agradável e romântica do início de sua carreira foi uma escolha sensata.
As noites brancas são aquelas do verão de São Petersburgo, nas quais o sol não se põe totalmente, deixando uma claridade fantasmagórica. Em uma dessas noites, um homem que se define como um sonhador, conhece uma moça. Ela, jovem e humilde, chorava. Mesmo com um aperto no coração, nosso protagonista censura a si mesmo e não consegue lhe dirigir uma palavra de conforto. Mas, por uma ajuda do destino, ao seguir caminhando do outro lado da rua, um homem de aparência duvidosa se aproxima da jovem. E o sonhador protege a dama das ameaças da noite são petersburguense.
Essa foi a primeira das quatro noites brancas em que os dois se encontraram. Nasce entre eles uma amizade profunda, como se se conhecessem de longa data. Ele, eternamente grato por a moça não tê-lo rejeitado de cara, como outras o fariam. Ela, feliz por ter alguém que a aconselhasse e escutasse seus lamentos amorosos. Ele tinha a robustez das palavras, ela, a simplicidade. E talvez seja essa sua simplicidade o que lhe permite expressar com tamanha exatidão coisas que todos nós alguma vez já sentimos: “...por que nós todos não somos como irmãos? Por que parece sempre que até o melhor dos homens esconde algo do outro e se cala diante dele? Por que não dizer logo, diretamente, o que está no coração, se sabemos que não serão palavras ao vento? Mas todos aparentam ser mais duros do que realmente são, é como se todos temessem ofender seus sentimentos ao expressa-los muito depressa...”.
Esse romance, aparentemente simples, me fez refletir sobre o amor e suas contradições. Como ele pode causar a maior alegria que se pode sentir em um momento e, em outro, a maior das tristezas. E como este sentimento, que nos parece tão puro e altruísta, é tantas vezes egoísta.
Estarei já preparada para Crime e castigo e Os irmãos Karamazov?
10 October 2006
Sábias palavras de Arnaldo Jabor
Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas que quer que alguém seja seu.
Beijar na boca é bom? Claro que é! Se manter sem compromisso, viver rodeado de amigos em baladas animadíssimas é legal? Evidente que sim. Mas por que reclamam depois? Será que os grupos tribalistas se esqueceram da velha lição ensinada no colégio, onde "toda ação tem uma reação". Agir como tribalista tem consequências, boas e ruins, como tudo na vida. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc.
Embora já saibam namorar, "os tribalistas" não namoram. Ficar, também é coisa do passado. A palavra de ordem hoje é "namorix". A pessoa pode ter um, dois e até três namorix ao mesmo tempo. Dificilmente está apaixonada por seus namorix, mas gosta da companhia do outro e de manter a ilusão de que não está sozinho. Nessa nova modalidade de relacionamento, ninguém pode se queixar de nada. Caso uma das partes se ausente durante uma semana, a outra deve fingir que nada aconteceu, afinal, não estão namorando. Aliás, quando foi que se estabeleceu que namoro é sinônimo de cobrança?
A nova geração prega liberdade, mas acaba tendo visões unilaterais. Assim como só deseja "a cereja do bolo tribal", enxerga somente o lado negativo das relações mais sólidas. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor.
Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer boa noite, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter alguém para amar.
Já dizia o poeta que "amar se aprende amando" e se seguirmos seu raciocínio, esbarraremos na lição que nos foi passada nas décadas passadas: relação é sinônimo de desilusão. O número avassalador de divórcios nos últimos tempos, só veio a confirmar essa tese e aqueles que se divorciaram ( pais e mães dos adeptos do tribalismo), vendem na maioria das vezes a idéia de que casar é um péssimo negócio e que uma relação sólida é sinônimo de frustrações futuras. Talvez seja por isso que pronunciar a palavra "namoro" traga tanto medo e rejeição.
No entanto, vivemos em uma época muito diferente daquela em que nossos pais viveram. Hoje podemos optar com maior liberdade e não somos mais obrigados a "comer sal junto até morrer". Não se trata de responsabilizar pais e mães, ou atribuir um significado latente aos acontecimentos vividos e assimilados na infância, pois somos responsáveis por nossas escolhas, assim como o que fazemos com as lições que nos chegam. A questão não é causal, mas quem sabe correlacional.
Podemos aprender amar nos relacionando. Trocando experiências, afetos, conflitos e sensações. Não precisamos amar sob os conceitos que nos foram passados. Somos livres para optarmos. E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento... É arriscar, pagar para ver e correr atrás da felicidade. É doar e receber, é estar disponível de alma, para que as surpresas da vida possam aparecer. É compartilhar momentos de alegria e buscar tirar proveito até mesmo das coisas ruins.
Ser de todo mundo, não ser de ninguém, é o mesmo que não ter ninguém também... É não ser livre para trocar e crescer... É estar fadado ao fracasso emocional e à tão temida solidão.
31 August 2006
Vida dupla
Na sua nova vida falta ainda a família e a segurança dos velhos amigos, falta a comidinha de casa, a TV a cabo, um carro que te conduza... Na sua velha vida falta a independência, os novos amigos, todo o tempo que a faculdade ocupa...
Na sua nova cidade ainda não sente que sua vida é totalmente lá... Mas também sente-se um tanto quanto perdida quando volta à casa dos pais, sua vida não é mais ali...
Quando está em sua atribulada nova vida, sente saudade da velha... Na velha e pacata vida sente falta da nova e agitada...
Até quando vai durar esse sentimento? Será que sempre estarei perdida em meio à minha vida dupla?
29 August 2006
Protótipo de uma jornalista aos 14 anos
O ser humano é um ser complexo
Uma criatura única
Seu ciclo de vida não se resume
A nascer, crescer, reproduzir-se e morrer
Seu trajeto é muito mais difícil
Ele precisa amar, encontar seu lugar, seu objetivo de vida.
Alguns encontram sua alma gêmea, formam uma família
Outros passam a vida sozinhos,
Às vezes por escolha própria,
Às vezes por falta de opção.
Suas emoções podem não ter explicação,
Ele pode corar sem motivo ou rir à toa.
Mas por que será que um simples gesto
De ajudar alguém, um ato de solidariedade,
Pode dar uma satisfação,
Uma alegria imensa dentro de nós?
Talvez seja essa a função do ser humano na Terra:
Seguir seu caminho e ajudar os outros.
É importante aproveitarmos cada momento,
Cada segundo de nossas vidas,
Pois cada momento é breve
E a vida mais breve ainda.
Cada coisa deve ser feita com dedicação intensa
Para que nos dê motivo de orgulho e
Não de arrependimento
Devemos plantar nossos frutos,
Para que quando nosso ciclo de vida na Terra chegar ao fim,
Nossas obras fiquem guardadas
Na lembrança de quem amamos
E sejam admiradas
Para que assim
Deixemos a Terra
Com a sensação de missão cumprida.
Por mais difícil que possa ser,
Encontre a paz
Não só com os outros,
Mas também dentro de você mesmo.
Ame e se deixe ser amado,
Sorria e faça alguém sorrir,
Chore e ajude alguém que chora,
Cresça e faça alguém crescer.
Sorria pelo menos uma vez ao dia,
Se apaixone,
Plante uma árvore,
Faça uma boa ação de vez em quando,
Agradeça todo dia por tudo o que tem.
Faça com que os momentos de alegria prevaleçam,
Faça com que você seja lembrado com lágrimas,
Mas não lágrimas de tristeza
E sim, lágrimas de alegria.
Se deixe viver,
Sem medo,
Dê asas à sua imaginação,
Se deixe livre para voar.
O mais impoirtante:
Seja e faça os outros felizes!